Como não usar os grupos de zap para organizar-se

Estamos replicando aqui esse texto originalmente publicado no blog Passa Palavra porque ele conversa muito bem com  boas práticas, algo que temos pensado bastante aqui no Mariscotron.

Em postagens anteriores, como “Instalei o Signal, e agora?”“Boas Práticas para Lista de Emails”, buscamos trabalhar com a ideia de que a forma como utilizamos uma determinada ferramenta tem que estar pensada e construída para nos auxiliar a alcançar nossos objetivos enquanto grupo. E que o software em si não é o único responsável para que as nossas comunicações sejam eficazes e seguras.

Vale lembrar, claro, que as ferramentas digitais têm valores esculpidos na sua própria arquitetura e que as boas práticas servem apenas até certo ponto. Ou seja, é impossível alterar completamente a função de uma ferramenta digital apenas com boas práticas.

Por Lucas

1. Desnaturalize completamente o uso dos grupos de celular. Se uma pessoa sai sem dizer nada, não é porque se ofendeu. Se ninguém te respondeu, não é (necessariamente) porque estão te boicotando. Essas tecnologias reproduzem uma intimidade social, só que sempre em um contexto individualizado, que nos leva a uma sobreinterpretação de tudo.

2. Trate os usos dos grupos em um encontro presencial. Não devemos utilizar regras tácitas ou um sentido comum sempre individualista como critério. Uma reunião onde todos e todas possam discutir os critérios fará com que se pense duas vezes ao usar a ferramenta, impedindo assim os comportamentos mais mecânicos e sem filtro que tão facilmente reproduzimos.

3. Estratégias comuns das pessoas que buscam lugar de destaque:

A. Superpresença virtual: estar constantemente mandando matérias, comentários, links, etc.; seja para suprir uma falta de atividade presencial, seja para estar sempre figurando e expondo opiniões.

B. Desvio de atenção: para evitar que um tema seja bem comunicado, é sempre fácil iniciar uma temática nova antes de que a intervenção anterior tenha um desenvolvimento. Por exemplo, Luiza relembra que haverá uma reunião no sábado e é necessário que mais pessoas confirmem sua presença; mas Paulo acha essa reunião uma perda de tempo, então antes que alguém responda à mensagem de Luiza, Paulo joga no grupo o link sobre uma declaração do Lula e instiga comentários de outras pessoas. Denis, facilmente indignável, ou apenas de forma inocente, dá seu ponto de vista sobre a declaração, motivando outros e outras a fazerem o mesmo, e logo a intervenção de Luiza fica muito acima no chat e o tema é então ignorado/esquecido, principalmente por aqueles e aquelas que só puderam olhar as mensagens do grupo algumas horas depois.

4. Uma forma eficaz de pressionar outra pessoa é sobrecarregá-la com mensagens privadas, cobrando/insistindo para que ela se posicione (sobre uma outra pessoa, sobre um fato, sobre o significado do que algum outro falou, etc.). Aquela habilidade, que antes requeria um mínimo de atitude mafiosa para ser feita presencialmente, agora pode ser usada à distância, e a manipulação dos afetos e das personalidades mais suscetíveis também é realizável por WhatsApp. É sempre possível tentar influenciar para que alguém diga algo num grupo que você mesmo/a não quer dizer, afim de não se expor pessoalmente. Isso vale tanto para uma assembleia como para um grupo de zap.

5. A falta de pudor com a qual se desmarcam compromissos de última hora, talvez o maior veneno da comunicação por mensagens instantâneas, tem de ser extirpada. Os celulares são uma realização prática da ideologia individualista, e terminam por precedê-la na determinação de nossos atos. Somos constantemente seduzidos a comunicar nossos desejos e impulsos mais baixos, falsificando ou ironizando atos valorosos ou o próprio valor da disciplina. Dentre os piores comportamentos estão:

A: tentativas de marcar reuniões por WhatsApp,

B: tentativas de remarcar reuniões com 1 ou menos dia de antecedência,

C: avisos de que se chega tarde já durante a própria tardança,

D: pedidos de re-re-reconfirmação de que haverá uma reunião ou atividade a poucos dias da mesma — criando um clima genérico de incertezas e instabilidades.

D1: com um mínimo de análise psicológica barata é possível entender que aqueles/as que recorrem a este comportamento, na maioria das vezes, estão na verdade estimulando a incerteza de outros/as, buscando uma cumplicidade para mudar uma data de reunião/atividade, ou secretamente planejando ocupar aquele horário com outra atividade.

D2: nos poucos casos de simples ingenuidade, quando as práticas da vida privada se reproduzem nos âmbitos de organização, o resultado é negativo para o coletivo de pessoas. Tudo bem que teus amigos e amigas sejam ramelões e desmarquem coisas em cima da hora ou que seja sempre necessário confirmar os encontros um par de horas antes quando se trata de assistir um jogo de futebol na casa de Fulano ou comer uma pizza na casa de Cicrana. No entanto, quando se trata de organizar um coletivo de pessoas com diferentes graus de afinidade/propósito, esse clima contribui profundamente para desacreditar os combinados, o que também termina enfraquecendo o potencial de qualquer ação coletiva.

D3: A questão de fundo é: quanto podemos confiar nos e nas nossas companheiras, se tudo é recombinável com o poder dos nossos dedos? Se vivemos em uma cidade onde o transporte é sempre uma roleta-russa: como adaptar-nos para que o celular não seja a principal mediação na hora de nos organizar? Como relacionar a geografia urbana com nossa organização para que não estejamos sempre à mercê das dificuldades e do acaso? Como construir confiança e constância em um mundo de fake news e de recompensas imediatas que nos chegam ininterruptamente aos bolsos de nossas calças?

Onde foi que o WhatsApp errou?

Tradução do artigo de 26/01/2017 da EFF Where WhatsApp Went Wrong: EFF’s Four Biggest Security Concerns.

Onde foi que o WhatsApp errou?

Nenhuma tecnologia é 100% segura para todos os usuários, e sempre existem perdas e ganhos em relação à segurança, facilidade de uso e outras considerações. No manual de Autodefesa contra Vigilância (Surveillance Self Defense – SSD), nosso objetivo é destacar tecnologias confiáveis e ao mesmo tempo explicar e chamar atenção para como seus pontos fortes e fracos afetam a privacidade e a segurança do usuário. No caso do WhatsApp, está ficando cada vez mais difícil de explicar adequadamente suas armadilhas de forma clara, compreensível e prática. Tem sido assim especialmente desde o aviso do WhatsApp de que a empresa mudaria seu acordo com os usuários com respeito ao compartilhamento de dados com os outros serviços do Facebook.

Isso é uma pena precisamente por causa dos pontos fortes de segurança do WhatsApp. No fundo, o WhatsApp usa o que há de melhor em troca de mensagens encriptadas: o Protocolo Signal. Isso confere uma ótima garantia de que as mensagens entre você e seus contatos são encriptadas de forma que mesmo o WhatsApp não pode lê-las, que a identidade de seus contatos pode ser verificada e que mesmo se alguém roubar suas chaves de encriptação e for capaz de “grampear” a sua conexão, ele não conseguirá desencriptar as mensagens que você enviou no passado. Na linguagem de criptografia, essas garantias são chamadas de encriptação de ponta a ponta, autenticidade, e sigilo encaminhado (forward secrecy).

Não temos nenhum problema em como essa encriptação é feita. Na verdade, esperamos que o protocolo que o WhatsApp usa se torne amplamente difundido no futuro. Entretanto, estamos preocupados com a segurança do WhatsApp apesar dos melhores esforços do Protocolo Signal. Todo aplicativo é feito de vários componentes: a interface do usuário, o código que interage com o sistema operacional, o modelo de negócios por trás de toda a operação – e os aplicativos de mensagem não são uma exceção. Mudanças nessas funcionalidades circundantes são onde identificamos que um usuário pode superestimar, a ponto de se arriscar, a segurança do WhatsApp.

Abaixo, descrevemos nossas quatro principais preocupações em mais detalhes.

Backups não encriptados

O WhatsApp fornece um mecanismo de salvaguardar mensagens na nuvem. Para fazer isso de forma que as mensagens possam ser restauradas sem uma frase secreta no futuro, esses backups precisam ser armazenados sem encriptação. Na primeira instalação, o WhatsApp te pede para escolher com que frequência você gostaria de salvaguardar suas mensagens: diariamente, semanalmente, mensalmente ou nunca. Em nosso manual, avisamos os usuários para nunca salvaguardarem suas mensagens na nuvem, já que isso entregaria cópias não encriptadas de suas mensagens ao provedor da nuvem. Para que sua comunicação seja de fato segura, todas as pessoas com quem você se comunica devem fazer o mesmo.

Notificações de mudança de chave

Se a chave de encriptação de um contato muda, um aplicativo de mensagens seguro deveria enviar uma notificação e perguntar se você aceita essa mudança. No WhatsApp, entretanto, se um contato muda suas chaves, este fato fica escondido por padrão. Para ser avisado, os usuários têm que procurar pela configuração “Notificações de Segurança” (encontrada em “Segurança” na seção “Conta” das suas configurações) e ativá-la manualmente.

Note que mesmo que você ative esta configuração, você somente será notificado de mudanças de chave após a mensagem em questão ter sido enviada. Se o seu modelo de ameaças tolera ser notificado após um potencial incidente de segurança acontecer, então ativar essa opção pode ser suficiente. Porém, se você é um usuário em alto risco cuja segurança pode ser comprometida por uma única mensagem reveladora, então receber um aviso após o ocorrido é um perigo.

A verificação de chaves é muito importante para prevenir um ataque de Homem no Meio (Man in the Middle attack), no qual uma terceira pessoa se faz passar por um contato seu. Neste tipo de ataque, essa terceira pessoa se coloca no meio da sua comunicação e convence o seu aparelho a enviar mensagens a ele ao invés de para o seu contato, ao mesmo tempo decriptando essas mensagens, possivelmente modificando-as e enviando-as a diante para o seu destinatário original. Se as chaves de um contato mudam repentinamente, isso pode ser a indicação de que você está sofrendo esse tipo de ataque (embora tipicamente isso aconteça simplesmente porque o seu contato comprou um novo telefone e reinstalou o aplicativo).

Aplicativo Web

O WhatsApp fornece uma interface web protegida por HTTPS para seus usuários enviarem e receberem mensagens. Como acontece com todos os websites, os recursos necessários para carregar a aplicação são entregues cada e toda vez que você visita aquele site. Assim, mesmo que o seu navegador suporte criptografia, o aplicativo web pode facilmente ser modificado para uma versão maliciosa a qualquer momento, o que poderia fazer com que suas mensagens fossem entregues a terceiros. Uma opção melhor e mais segura seria fornecer um cliente desktop através de extensões (do navegador) ao invés de uma interface na web.

Compartilhamento de dados com o Facebook

A atualização recente da política de privacidade do WhatsApp anunciou planos de compartilhar dados com a companhia que o possui, o Facebook, assinalando uma mudança significativa nas atitudes do WhatsApp com respeito à privacidade do usuário. Em particular, a linguagem vaga e aberta da atualização da política de privacidade levanta questões sobre exatamente quais informações de usuário o WhatsApp está ou não compartilhando com o Facebook. O WhatsApp anunciou publicamente seus planos para compartilhar os números de telefones dos usuários e dados de uso com o Facebook com o propósito de fornecer aos usuários recomendações mais relevantes de amigos e propaganda. Embora aos atuais usuários do WhatsApp é dado 30 dias para optar por não aderir a essa mudança na sua experiência de usuário do Facebook, eles não podem optar pelo não compartilhamento de dados em si. Isso dá ao Facebook uma capacidade alarmantemente aumentada de olhar a comunicação dos usuários online com respeito a atividades, afiliações e hábitos.

Próximos passos

O WhatsApp e o Facebook poderiam dar alguns passos simples para restaurar nossa confiança nos seus produtos.

  • Simplificar a interface de usuário do WhatsApp para fortalecer a privacidade. Uma configuração que ativasse todas as opções de proteção – tais como desabilitar backups, habilitar notificações de mudança de chave e optar por estar fora do compartilhamento de dados – tornaria muito mais fácil para os usuários ter o controle sobre sua segurança.
  • Fazer uma declaração pública sobre exatamente quais tipos de dados serão compartilhados entre WhatsApp e facebook e como eles serão usados. O WhatsApps precisa decidir certos usos futuros de seus dados através da definição do irá fazer – e, tão importante quanto, o que não irá fazer – com as informações de usuário que coleta.

Até que tais mudanças aconteçam, temos que avisar os usuários para que tomem cuidados extras quando decidirem se e quando se comunicarão usando o WhatsApp. Se você decidir usar o WhatsApp, veja nosso guia para Android e iOS para mais informações sobre como mudar suas configurações para proteger a sua segurança e privacidade.

Facebook tem a capacidade de ler suas msg encriptadas de WhatsApp

tirado da Folha.

Brecha do WhatsApp permite espionar mensagens criptografadas, diz jornal

Um pesquisador da Universidade da Califórnia descobriu uma brecha de segurança do WhatsApp que pode ser usada pelo Facebook e por outras instituições para interceptar e ler mensagens criptografadas enviadas no aplicativo.

De acordo com o jornal “Guardian”, Tobias Boelter, especialista em criptografia e segurança, encontrou o atalho. “Se agências do governo solicitarem ao WhatsApp o registro de mensagens, a empresa pode conceder esse acesso devido a uma mudança de chaves [de segurança]”, disse ele à publicação britânica.

O Facebook, que controla o WhatsApp, afirma que ninguém pode interceptar essas mensagens —nem mesmo a empresa e sua equipe—, o que garante a privacidade dos usuários.

O sistema de segurança gera chaves de segurança exclusivas, por meio do protocolo Signal, desenvolvido pela Open Whisper Systems.

A criptografia “end to end” é um sistema utilizado pelo aplicativo para que a mensagem saia com uma espécie de “cadeado invisível” do dispositivo que a envia e só seja decodificada quando chega ao aparelho do receptor. Nos servidores da empresa, não são retidos nenhum vestígio do conteúdo dessas mensagens.

A segurança do WhatsApp baseia-se na geração de chaves de segurança exclusivas, usando o aclamado protocolo Signal, desenvolvido pela Open Whisper Systems, que é negociado e verificado entre usuários para garantir que as comunicações são seguras e não podem ser interceptadas por um intermediário.

No entanto, o WhatsApp tem a capacidade de forçar a geração de novas chaves de cifração para usuários off-line, sem que remetente e destinatário da mensagem original tenham ciência disso, e pode forçar o remetente a recifrar mensagens com novas chaves e enviá-las de novo, em caso de mensagens que não tenham sido marcadas como entregues.

O destinatário não é informado dessa alteração na criptografia, enquanto o remetente é notificado somente se eles tiverem optado por avisos de criptografia nas configurações e somente após as mensagens terem sido reenviadas. Esta re-criptografia e retransmissão efetivamente permite que o WhatsApp intercepte e leia as mensagens dos usuários.

Segundo o “Guardian”, Boelter relatou a vulnerabilidade ao Facebook em abril de 2016. A resposta foi que a empresa estava ciente do problema, que era um “comportamento esperado” e não estava sendo trabalhado.

Um porta-voz da WhatsApp disse ao “Guardian” que “mais de 1 bilhão de pessoas usam o WhatsApp hoje porque é simples, rápido, confiável e seguro. Sempre acreditamos que as conversas das pessoas devem ser seguras e privadas. No ano passado, demos a todos os nossos usuários um nível de segurança melhor, fazendo com que cada mensagem, foto, vídeo, arquivo e chamada de ponta a ponta sejam criptografados por padrão. À medida que introduzimos recursos como criptografia de ponta a ponta, nos concentramos em manter o produto simples e levar em consideração como ele é usado todos os dias em todo o mundo.”

“Na implementação do protocolo Signal adotada pelo WhatsApp”, acrescentou o porta-voz ao “Guardian”, “temos uma opção de configuração que permite exibir notificações de segurança, e ela notifica usuários sobre alterações em seu código de segurança. Sabemos que o principal motivo para que isso aconteça é que as pessoas troquem de celular ou reinstalem o WhatsApp. Isso acontece porque, em muitas partes do mundo, as pessoas frequentemente trocam de aparelho e de chip. Nessas situações, queremos garantir que as mensagens enviadas a elas sejam entregues e não fiquem perdidas no caminho”.

Steffen Tor Jensen, vice-presidente de segurança da informação e de combate à vigilância digital na Organização Europeia-Bahraini para os Direitos Humanos, verificou as descobertas de Boelter. “O WhatsApp pode efetivamente continuar lançando as chaves de segurança quando os dispositivos estão offline e reenviando a mensagem, sem deixar os usuários saberem da mudança até que ela tenha sido feita, fornecendo uma plataforma extremamente insegura”, disse ele ao jornal.

A professora Kirstie Ball, fundadora do Centro de Pesquisa em Informação, Vigilância e Privacidade, chamou a existência de atalho dentro da criptografia do WhatsApp “uma mina de ouro para agências de segurança” e “uma enorme traição à confiança do usuário”.

“É uma enorme ameaça à liberdade de expressão. Os consumidores dirão, eu não tenho nada a esconder, mas você não sabe que informação é procurada e que conexões estão sendo feitas”, completa.

Ativistas de privacidade disseram que essa vulnerabilidade é uma “enorme ameaça à liberdade de expressão” e advertiram que ela pode ser usada por agências governamentais para espionar as pessoas, que acreditam que suas mensagens são seguras.